SÓCRATES INAUGURA PRIMEIRO DE «NOVA GERAÇÃO DE LARES»
A «primeira grande obra» do Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais foi inaugurado este sábado por José Sócrates, no Entroncamento. Trata-se do Lar da Santa Casa da Misericórdia, considerado o primeiro de uma «nova geração de lares para idosos».
Até ao final do ano, o primeiro-ministro espera que muitas centenas de equipamentos vejam a luz do dia, sendo que a prioridade é criar melhores condições para crianças e idosos. «Este é o maior investimento alguma vez feito em equipamentos sociais das últimas décadas», frisou Sócrates, falando dos 400 milhões de euros investidos no programa acrescentando que são já mais de 3 mil as camas destinadas a acolher idosos que necessitem de cuidados continuados de saúde.
Num discurso centrado nos problemas dos mais velhos, o primeiro-ministro sublinhou ainda a importância do rendimento solidário, garantindo que são já 200 mil os idosos que recebem este auxílio do estado.
(Noticia publicada a 5 de Maio de 2009 na edição on line Mundo Sénior)
Não pude deixar de reflectir sobre esta notícia que diz respeito à Grande Idade e que anuncia uma autêntica revolução na área dos equipamentos sociais para pessoas idosas.
É inegável o esforço que o actual governo da nação tem feito nesta área. Por mais pessimistas que sejamos e mais contestatários que nos interesse ser, somos obrigados a reconhecer que o trabalho desenvolvido pela Unidade de Missão dos Cuidados Continuados e Integrados, pela Direcção Geral de Saúde com o programa de saúde oral, pelo Alto Comissariado das Saúde com o programa Via Verde AVC e EAM, pela Segurança Social com a atribuição de novas comparticipações e benefícios á população mais envelhecida e carenciada são exemplos que não podem ser ignorados.
Há contudo um comportamento desadequado em relação a algumas situações que, prevejo, sejam consequência de mau aconselhamento técnico e mau acompanhamento por parte dos responsáveis de alguns sectores sociais e de saúde que influenciam o nosso governo.
Esta notícia anuncia uma “nova geração de lares”, referindo-se essencialmente às condições físicas e ao favorecimento que o subsidio do Estado vai dar a Instituições já conhecidas no “mercado” dos cuidados e serviços às pessoas idosas.
Mas isto representa a forma desadequada como se pretende alterar algo que, deste modo, nunca será alterado.
O que é necessário é promover uma nova geração de modelos de trabalho, de prestação de cuidados e de oferta de serviços. São os processos que devem ser alterados e não necessariamente as condições físicas dos lares e casas de repouso. Poderemos fazer grandes construções, até faraónicas, pintar as paredes com cores garridas, colocar sofás extraordinariamente luxuosos, substituir as antigas televisões por LCD’s, colocar telefones em todas as mesinhas de cabeceira, dotar as instalações de sofisticados sistemas de internet que isso nada alterará a qualidade dos cuidados prestados, a felicidade das pessoas idosas.
É necessário alterar o modelo de trabalho, o modelo legislativo. Obrigar os cuidadores a fazerem formação, enriquecer a sua capacidade técnica de intervenção, modificar a atitude, o comportamento, reflectir sobre o sentido da ocupação e lazer, dos cuidados de saúde, dos critérios de admissão, das obrigatoriedades aberrantes da legislação, dos conteúdos funcionais dos prestadores de serviços. O que é preciso é acabar com o modelo de prestação de serviços que utilizam o mesmo funcionário para fazer a limpeza do chão, servir à mesa e mudar a fralda do idoso, com o modelo de trabalho em que se iniciam higienes às 4 horas da madrugada para estarem todos prontinhos à hora do pequeno-almoço, com o modelo de ocupação baseado nos bailes patéticos e excursões suadas e mal cheirosas, com o modelo de colocar na mesma instituição, no mesmo espaço pessoas idosas completamente dependentes com pessoas idosas cuja única “patologia” é terem mais de 65 anos, com o modelo de “para quem é, isto basta”, com o modelo caritativo de apoiar os desgraçadinhos, colocando-os o dia inteiro em profundos sofás a olharem para o vazio à espera da morte anunciada. O que temos que mudar é o conceito dos “Lares do Feliz Ocaso” como os descreve o nosso prémio novel da literatura José Saramago, numa brilhante incursão por esta área no seu livro “As Intermitências da Morte”.
Apelo ao Sr. Primeiro-ministro, que muita preocupação tem demonstrado com este sector, que não distribua dinheiro pensando que o conceito de residência assistida luxuosa resolve os problemas desta área. Por favor, deixe de distribuir dinheiro, deixe de fornecer o peixe e ensine a pescar.
Que interessam lares com boas condições físicas, “a nova geração” se não tem técnicos de saúde, sendo a sua população exclusivamente constituída por pessoas idosas doentes? O que interessa dar boas condições físicas a Instituições dirigidas por um modelo em que falar em enfermagem de 24 horas, psicóloga ou equipa multidisciplinar é um escândalo? Para que serve este dinheiro se não investimos um cêntimo em formação nesta área? Se não definimos sequer o conteúdo funcional das Direcções Técnicas? Se não nos preocuparmos com os direitos fundamentais das pessoas Idosas que tem a ver com a sua representação jurídica.
Estou a alongar-me, mas o tema é apaixonante e deveria motivar uma discussão nacional em redor do modelo de lares de idosos e casas de repouso que pretendemos para as futuras gerações. Ou pensamos que os nossos filhos e os nossos netos vão ter capacidade para ficar connosco nos mínimos apartamentos que compraram para viverem? Ou pensamos que é distribuindo subsídios para construções que apenas contribuem para aumentar o ego de algumas centenas de dirigentes “voluntários” de instituições caridosas, que vai resolver os nossos problemas no futuro?
A confusão é grande e não basta ter dinheiro. Devemos sentar-nos e conversar. Em trinta e cinco anos de liberdade e desenvolvimento social o que melhorou nos lares de idosos e casas de repouso? A pintura? Os sofás? Ou conhecem melhorias substanciais na formação dos prestadores de cuidados? Ou conhecem exemplos de felicidade das pessoas idosas nos lares? O que melhorou?
A confusão é tão grande que a notícia refere que o Senhor Primeiro Ministro disse: “acrescentando que são já mais de 3 mil as camas destinadas a acolher idosos que necessitem de cuidados continuados de saúde”. Então o programa afinal é para lares ou para unidades de cuidados continuados?è destinado á área social ou à área de saúde? È que são coisas diferentes… infelizmente.