Em entrevista ao Fórum Hospital do Futuro, Maria Helena Monteiro, membro do Grupo Permanente da Saúde da APDSI (Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação), avalia e comenta a evolução das TIC no sector da saúde em Portugal.
HdF: Que avaliação faz do percurso e do desenvolvimento das TIC no sector da saúde em Portugal?
HM.: O desenvolvimento das TIC no sector da saúde em Portugal tem seguido um percurso natural, ou seja, as TIC só são adoptadas quando há conhecimento do que são, para que servem, por quem usar; vontade de usar por se demonstrar útil e, por outro lado, tem de haver a certeza de alguma facilidade na utilização.
Só com estas três condições satisfeitas é que se pode passar ao passo seguinte, ou seja, responder a “quanto custa? ”, “quem vai ter de estar envolvido?”, “como vamos encontrar os recursos?”, “quando precisamos de ter estas TIC em funcionamento?” e, por fim, “como vai ser o planeamento da implementação?”, “o que pode correr mal?”, “como vamos reorganizar a prestação dos serviços?”, “como vamos ensinar as pessoas com os novos procedimentos e instrumentos ?”, etc, etc, …
Em Portugal, até há bem pouco tempo, os médicos e as enfermeiras, de uma forma geral, não conheciam as potencialidades das TIC para o seu sector e não procuravam descobri-las… pois não fazia parte da sua aprendizagem/função.Sendo Portugal um país pequeno e havendo uma resposta médica para cada cidadão (mesmo gastando um dia de trabalho nas deslocações), não teve de dinamizar, de uma forma geral, a utilização da TeleMedicina. Outros países ou regiões tiveram de o fazer.
Por cá, só no Alentejo, onde a densidade populacional é menor e portanto é mais difícil aceder ao médico, houve uma iniciativa mais abrangente na prática da TeleMedicina.
Hoje, a realidade sobre o conhecimento das potencialidades das tecnologias é diferente, nem que seja por paralelismo com a utilização da Internet e dos dispositivos móveis, para além do facto de os cursos das profissões da saúde já darem atenção à aquisição deste tipo de competências.Nestas circunstâncias, a utilização das TIC na saúde em Portugal, nos próximos tempos, vai ser galopante.
HdF: Como prevê que seja o desenvolvimento futuro das estruturas potenciadoras das TIC?
HM.: Como estruturas potenciadoras das TIC, temos:
- As Escolas Secundárias e Superiores – onde cada vez mais cedo se utilizam TIC, desde uma simples folha de cálculo, ou um sítio de aprendizagem, até à utilização à distância de robots;
- A Administração Pública e Privada com responsabilidades no estado da saúde dos cidadãos e na gestão dos respectivos sistemas de saúde – Hospitais, ACES, Direcção Geral de Saúde, ACSS, Parcerias com Privados, … Todas elas são obrigadas a funcionar cada vez mais em rede para temáticas operacionais, para actividades de gestão e controlo e para acções e projectos de integração multinacional;
- As organizações do sector social focadas na divulgação, apoio e acompanhamento de idosos, convalescentes, doenças crónicas… têm cada vez mais, na operacionalização da sua actividade, o uso a 24*7 de instrumentos de medição e comunicação à distância;
- A indústria de equipamentos e soluções para a saúde através de projectos de desenvolvimento científico aumenta e diversifica a oferta de soluções para a doença /saúde baseadas em TIC;
Todas estas instituições vão impulsionar necessariamente a utilização de TIC no sector da saúde.
Existe ainda a própria Pressão do Cidadão, a qual vai ser progressivamente mais forte em relação ao uso de TIC (acesso, comunicação, informação,…), sempre que as mesmas contribuam para o benefício do mesmo ou da sua família.
HdF: Quais as principais melhorias que o sector da saúde pode receber com uma maior adesão às TIC?
HL.: Uma vez que TIC significa Tecnologias de Informação e Comunicação, torna-se visível que vá haver melhorias, nomeadamente:
- em relação à robustez na tomada de decisões que se façam sobre informações obtidas e distribuídas previamente;
- em relação à construção de novas informações com base em informações mais elementares, como por exemplo no tratamento analítico de dados através de simples estatísticas descritivas ou permitindo efectuar inferência estatística;
- em relação a uma maior facilidade de integração, agregação e difusão de informação que permitirá tarefas de planeamento e controlo mais rápidas e com mais rigor;
- em fortalecer processos de aprendizagem à distância
Poderíamos identificar outras melhorias, mas cremos que a este nível estas já são bastante relevantes.
HdF: A TeleMedicina representa um vector de profunda transformação no espaço da saúde. De que modo podemos concretizá-la nos serviços de saúde portugueses?
HM.: Na TeleMedicina podemos reconhecer diversos serviços de saúde à distância. Há consultas, obtenção de imagens e resultados de exames à distância, relatórios sobre imagens, segundas opiniões sobre diagnósticos, monitorização de indicadores de saúde à distância e ainda, o ensino ou a aprendizagem à distância.
A TeleMedicina tem vindo a entrar em Portugal sem dar muito nas vistas; entra localmente onde há condições económicas, técnicas e sociais que permitam o serviço.
O que não há em Portugal é um plano alargado de serviços de TeleMedicina para todo o país, como tem sido desenvolvido noutros países ou regiões.
HdF: Que inovações existem fora de Portugal, a nível da Saúde Electrónica, que poderiam/deveriam ser aplicadas no país?
HM.: Neste momento, Portugal faz parte dos grupos europeus de desenvolvimento de eHealth. As inovações que encontramos previstas para Portugal como o RSE estão igualmente em estudo e/ou implementação nos outros países da Europa. A utilização de vários serviços de TeleMedicina de forma mais ampla também faz parte dos programas europeus… contamos com a dinâmica de Portugal para aproveitar o ritmo de iniciativas europeias.
Existem porém dois temas que eu considero que poderiam ser de aplicação mais alargada, a saber:
- a utilização de software livre sempre que possível para reduzir custos
- a aplicação apropriada de soluções de saúde à distancia em todas as iniciativas de Portugal e o Mar.
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