
Entrevista: Daniel Neves, Responsável de Marketing da Biosurfit, Vencedor Prémio Biotecnologia do VIII Fórum Hospital do Futuro.
O conceito que conduziu à criação da Biosurfit é o do diagnóstico perto do paciente (Point-of-Care Testing). Os profissionais de saúde, mais especificamente os médicos, têm-se manifestado sobre a ausência de testes rápidos, precisos e fiáveis para tomar a melhor decisão de diagnóstico e tratamento. A tecnologia desenvolvida pela Biosurfit permite obter informações em real-time em que o diagnóstico e tratamento dos doentes poderão ser antecipados e assim melhorar a qualidade do serviço prestado a um menor custo para o sistema nacional de saúde.
A solução consiste num leitor universal spinit® de fácil manuseamento e num conjunto de descartáveis spinit disks multi-parâmetros, que fornecem resultados quantitativos num período de 15 minutos e a partir de uma única gota de sangue. A plataforma está dimensionada para integrar a maioria dos indicadores clínicos do sangue, apresentando-os em conjuntos (painéis) em cada teste descartável. A entrada do spinit no mercado nacional será em 2011, com o primeiro teste descartável da gama spinit, o spinit PCR, destinado à quantificação da concentração de Proteína C-Reactiva (PCR) no sangue, e Daniel Neves, Chief Marketing Officer da Biosurfit, explica ao Fórum Hospital do Futuro mais detalhes do projecto vencedor da categoria Biotecnologia dos Prémios Hospital do Futuro 2009/2010, que será apresentado no VIII Fórum Hospital do Futuro.
Fórum Hospital do Futuro (HdF): Qual a importância da detecção rápida da concentração de Proteína C – Reactiva no sangue?
Daniel Neves (DN): Actualmente existe um consenso internacional da classe médica para a utilização da Proteína C-Reactiva (PCR) como marcador sanguíneo do nível de inflamação de um paciente e que poderá dar mais informações aos médicos para avaliação de infecções, lesões dos tecidos e doenças inflamatórias. As medidas da PCR são mais uma indicação para os médicos na distinção entre infecções de origem bacteriana ou de origem viral, onde a utilização do antibiótico poderá ser ou não necessária. <br>
HdF: Porque é que a Biosurfit apostou no desenvolvimento deste teste em particular?
DN: Como sabemos, a resistência aos antibióticos e a as suas consequências têm sido estudadas em diversos estudos clínicos. Recentemente a Comissão Europeia publicou um estudo sobre a resistência aos antibióticos na União Europeia que demonstra claramente a preocupação da sociedade com a substancial utilização de antibióticos por parte dos europeus. 40% dos europeus reportaram ter recorrido a antibióticos nos últimos 12 meses, um em cada cinco respondeu que tinham recorrido a antibióticos para tratamento de gripe, 14 % terão utilizado antibióticos para tratamento de uma constipação, 53% consideram que os antibióticos «matam» os vírus.
Enfim, penso que a utilização da tecnologia spinit nas Unidades de Saúde Familiares (USF) ou centros de saúde, bem como a obtenção na hora do resultado da Proteína C-Reactiva irão contribuir para a decisão de prescrição ou não de um antibiótico e assim atacarmos este problema de uma forma mais eficiente.
HdF: Porque é que a Biosurfit apostou neste conceito em particular para desenvolvimento e quais os antecedentes que conduziram à sua criação?
DN: O conceito que conduziu à criação da Biosurfit é o do diagnóstico perto do paciente. Os profissionais de saúde, mais especificamente os médicos têm-nos reportado a sua necessidade de informação rápida, precisa e fiável para tomar a melhor decisão de diagnóstico e tratamento. Este processo de tomada de decisão é ainda mais crítico nas urgências e nas unidades de cuidados intensivos. Ora, se o médico tiver uma tecnologia que lhe permita obter essas informações em real-time o diagnóstico e tratamento dos doentes poderão ser antecipados e com isso melhorada a qualidade do serviço prestado a um menor custo para o sistema nacional de saúde.
Normalmente, a cadeia de valor associada à realização das análises clínicas passa por muitas ineficiências logísticas. A deslocação do doente ao banco de recolha ou ao próprio laboratório, a espera pela realização da análise e pelos resultados, a espera pela quantidade de solicitações suficientes para a realização das análises, só para dar alguns exemplos. Normalmente passam vários dias desde que o médico solicita essa informação até que ela lhe é disponibilizada.
Foi nessa base que a Biosurfit foi criada. O João Garcia da Fonseca (CEO da empresa) estava a realizar um projecto de investigação na faculdade de Ciências e desenvolveu uma série de estudos numa técnica de espectrometria chamada surface plasmon ressonance (SPR) que permite a detecção de alterações moleculares. Percebeu nessa altura que era uma técnica com um grau de estabilidade e fiabilidade altíssimo e que poderia ser utilizada em variadíssimas áreas. Ora, aliando uma clara necessidade de rapidez, fiabilidade e precisão a uma técnica que oferece essas garantias, só faltava garantir a rapidez da tecnologia.
HdF: Qual a tecnologia que permite a oferta de um teste deste género?
DN: A Biosurfit desenvolveu e é proprietária de uma plataforma que combina duas tecnologias emergentes: a detecção por Ressonância de Plasmão de Superfície (Surface Plasmon Ressonance) com a manipulação de fluidos à micro-escala por centrifugação («Lab-on-a-Disk»). Esta nova tecnologia permite a miniaturização de diversas funções realizadas num laboratório de análises clínicas para um suporte tipo CD. A posterior detecção no leitor spinit® por meios ópticos em diferentes câmaras de reacção baseia-se na tecnologia SPR, que permite a quantificação de diferentes marcadores, neste caso a PCR.
Sobre esta tecnologia a Biosurfit detém diversas patentes em diferentes fases de submissão: duas patentes em fases nacionais nos Estados Unidos e na Europa, dois pedidos de patente internacional (PCT) e dois pedidos de patente nacional.
HdF: Em que contexto será utilizado o teste pelos profissionais de saúde e utentes?
DN: Os testes desenvolvidos vão de encontro à necessidade existente no mercado, nomeadamente por parte dos gestores de USF, centros de saúde, hospitais públicos e privados para um dispositivo de diagnóstico médico que seja suficientemente versátil e permita a realização de diferentes tipos de análises de sangue para várias condições clínicas, apresentando resultados rápidos para uma vasta gama de parâmetros de elevado valor clínico. Sendo que não vai ser possível realizar todo o tipo de análises ao sangue através da tecnologia spinit® (existem mais de 4000 parâmetros que podem ser detectados no sangue humano), um número muito significativo dos parâmetros mais pedidos pelos médicos vai estar disponível através do spinit.
A grande mais-valia para o utente é sem dúvida a rapidez com que obtêm os resultados, facilitando um tratamento mais rápido e beneficiando de medidas preventivas face a doenças crónicas.
HdF: Como funciona o teste?
DN: O teste descartável - spinit-PCR é utilizado para determinar a concentração de proteína C-reactiva numa escala temporal de 15 minutos utilizando uma pequena gota (aproximadamente 5µl) de sangue. Após a colheita da amostra através de um tubo capilar, o teste descartável é introduzido no leitor spinit e são seguidas as instruções no ecrã. Antes da realização da análise, o sistema efectua um teste de auto-calibração e verifica os controlos de qualidade. A utilização do descartável permite o manuseamento da amostra de sangue com diferentes reagentes com intervenção mínima por parte do técnico de laboratório ou médico. Durante o processamento da amostra, a proteína C-Reactiva combina-se com um anticorpo específico para formar complexos insolúveis antigénio-anticorpo, que resultam no resultado final avaliado pelo médico.
HdF: Qual tem sido a reacção do mercado à necessidade deste teste, nesta fase de pré-divulgação?
DN: Em finais de 2009 fizemos em conjunto com a IMS Healthcare um estudo exaustivo ao mercado português, enfocando essencialmente nos médicos e outros key-players na área da saúde.
Os médicos partilham da opinião que a PCR é um bom indicador, com diferentes aplicações, na identificação e tratamento de doenças inflamatórias. Muitas vezes os médicos são confrontados com a necessidade de tomar decisões de prescrição e tratamento a doentes sem ter a informação de diagnóstico que seria ideal. O teste descartável (spinit-PCR) utilizado para a quantificação de Proteína C-Reactiva oferece uma ferramenta rápida e fiável ao médico, próximo do doente, para que expeditamente seja recomendada a prescrição de anti-bacterianos, caso estes sejam necessários. O impacto desta tecnologia, concretamente, o leitor spinit juntamente com o teste de PCR, traz claras vantagens em termos de redução dos custos associados à saúde, bem como a diminuição do período de uso de antibiótico, minimizando assim os riscos adversos inerentes.
HdF: Quando está previsto o lançamento final do produto?
DN: A Biosurfit prevê disponibilizar a sua primeira gama de produtos que inclui o leitor spinit e um primeiro teste descartável (spinit -teste de CRP) para quantificar níveis de Proteína C-Reactiva no início de 2011.
Em 2011 está prevista a disponibilização de mais dois painéis da gama spinit, o spinit Blood Count (Hemograma), destinado à contagem de células e quantificação de moléculas específicas no sangue, e o spinit Inflammation (inflamação), que rapidamente permita ao médico identificar o tipo de infecção ou inflamação.
No âmbito do plano de desenvolvimento a médio e a longo prazo de novos testes para a plataforma spinit, a Biosurfit tem prevista ainda a disponibilização de um painel cardíaco que junta uma série de biomarcadores num único teste para identificar pacientes mais propensos a doenças cardiovasculares, o painel de diabetes, que inclui a determinação de parâmetros como a glucose, hemoglobina glicada (HbA1C) e colesterol (LDL, HDL, VLDL) e que tem como principal objectivo acelerar o diagnóstico da diabetes que se tem revelado um problema de extrema gravidade na nossa sociedade. O pipeline de produtos inclui ainda um painel de coagulação e outro metabólico.
HdF: Quais as vossas previsões para a aceitação do teste nos profissionais de saúde e utentes?
DN: A Biosurfit realizou no final de 2009 um estudo de mercado especificamente direccionado para o mercado das análises clínicas em Portugal. Os resultados deste estudo de mercado foram surpreendentes e a aceitação do produto por parte dos médicos e gestores de unidades de saúde foi muitíssimo positivo. Foram contemplados médicos de várias especialidades, tais como de medicina geral, pediatria, medicina interna e cardiologistas, gestores de USF, centros de saúde, hospitais públicos e privados. Várias foram as conclusões deste estudo de mercado, mas realçamos a grande aceitação da tecnologia spinit, nomeadamente nas questões que são mais sensíveis para os médicos, como a rapidez na obtenção do resultado das análises, mas também na conjugação de parâmetros criados nos produtos a disponibilizar no mercado.
Por parte dos gestores obtivemos também sinais de aceitação muito positivos, com especial referência à diminuição da logística associada às análises e consequente redução de custos do processo, mas também no factor de diferenciação associado a este tipo de tecnologia nas suas unidades de saúde. Em muitos casos a simples possibilidade de fazer a análise na instituição de saúde já é um grande benefício, dado que actualmente precisam de recorrer a laboratórios centrais localizados a grandes distâncias, o que naturalmente dificulta muito o processo, especialmente nos períodos nocturnos e fins-de-semana.
HdF: Numa frase, como resume o impacto que o novo teste vai ter na Saúde dos Portugueses?
DN: A gama de produtos spinit vai proporcionar a realização de análises clínicas ao sangue na hora e com isso contribuir para a tomada de decisão dos médicos, para a melhoria da qualidade de vida dos utentes e para a redução de custos do sistema nacional de saúde.
HdF: Está prevista a expansão para mercados internacionais?
DN: A tecnologia spinit visa claramente o mercado global. As grandes vantagens competitivas do spinit face a produtos concorrentes passam pela possibilidade de detecção de um largo espectro de parâmetros, por criar painéis multi-parâmetro de acordo com as necessidades específicas dos médicos e fundamentalmente por permitir disponibilizar essa abrangência utilizando sempre a mesma tecnologia de leitura, o spinit reader.
Nessa perspectiva, os principais mercados que pretendemos alcançar passam pelos países da União Europeia e dos EUA, mas também por mercados emergentes, como por exemplo o do Brasil, onde existem necessidades muito específicas, inclusivamente a possibilidade de epidemia da Dengue.
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