Quando hoje se fala em atribuir algumas novas funções aos enfermeiros, invertendo a tendência portuguesa de cada vez existirem mais médicos para menos enfermeiros para o mesmo número de cidadãos[1] (temos mais médicos por 100 mil habitantes que os restantes países europeus mas muito menos enfermeiros que o resto da europa para o mesmo numero de pessoas), não posso deixar de aproveitar para promover uma proposta nuclear da Associação Amigos da Grande Idade que tem a ver com a introdução da CONSULTA DO ENVELHECIMENTO. E qual é a relação? É que esta consulta poderia ser feita exclusivamente por enfermeiros, rentabilizando os mesmos nos centros de saúde e USF ou mesmo contratando novos que teriam sempre um custo menor do que a contratação de médicos ou a sua utilização.
Talvez estejamos no tempo de entender que o termo e o acto CONSULTA não é uma exclusividade médica, como muitos corporativistas pretendem. Também os advogados dão consulta e não são médicos e só num País como o nosso se podem defender ideias deste género.
A Consulta do Envelhecimento deveria ser a porta de entrada para todo o processo de envelhecimento em Portugal. Aos 65 anos as pessoas deveriam ser chamadas ao seu Centro de Saúde ou Unidade de Saúde Familiar e ser-lhes oferecido um check-up mínimo mas que fosse eficaz de forma a conhecerem-se as maiores necessidades e a preverem-se algumas situações futuras. Existem hoje questionários e técnicas de abordagem cujos resultados permitem antecipar uma quantidade de problemas que, devidamente prevenidos, poderiam ser evitados.
Desta consulta sairia uma distribuição de pessoas por enfermeiros de referência que passariam a acompanhar o processo de envelhecimento das pessoas, influenciando as suas práticas e racionalizando os seus recursos a serviços de saúde.
Esta consulta passaria a ser a verdadeira base de dados para o planeamento dos cuidados e serviços a oferecer a pessoas idosas e ninguém seria financiado sem a informação desta consulta ou sem passar por ela. Poderia sempre ter cuidados domiciliários, frequentar centros de dia ou até ser institucionalizado em lar de idosos mas teria obrigatoriamente de ter o parecer e o relatório da consulta do envelhecimento que determinava o financiamento e controlava esse mesmo financiamento em função de indicadores internacionalmente aceites e cientificamente creditados.
Podem levantar problemas: estou habituado a que isso aconteça mal se diga alguma coisa fora do ouvimos diariamente. Podem dizer que a saúde passaria a mandar no social. É verdade. Mas quem mais que a saúde tem pragmatismo e eficácia suficiente para resolver problemas sociais? Vejam o tempo de referenciação de um doente num hospital para cuidados continuados na área da saúde (convalescença, recuperação global) e o tempo de referenciação na área social (prolongados ou paliativos). Deixemo-nos pois de defender as nossas quintinhas e passemos à acção. Podem dizer quer o processo era burocratizado. Não era. Um processo para comparticipação de cuidados domiciliários, centros de dia e lar de idosos e nesse caso, segundo o grau de dependência, é mais burocratizado do que a declaração de necessidade de financiamento para estes serviços saída de uma consulta de enfermagem. Ou não conhecem os processos, também sociais, que se arrastam tempos imensos pelos serviços sem que tenham qualquer decisão?! Podem dizer que este modelo é a substituição do serviço social pelo serviço de enfermagem. Não é. Posso defender que a consulta no centro de saúde seja feita por qualquer outro técnico que não seja enfermeiro e que tenha o mesmo custo e posso também dizer que essa consulta poderia eventualmente ser feita por técnicos de serviço social. É irrelevante já que o que está em causa é o processo e o processo será sempre do centro de saúde ser a porta de entrada para o sistema. È isso que está em causa e que isso seja feito com o mínimo de custos e, se possivel, com os meios que já se encontram no terreno.
O Técnico de referencia do centro de saúde de cada pessoa idosa deverá ter toda a informação sobre os recursos da comunidade e dar indicações sobre os mesmos, antecipando deterioração da situação de vida, aconselhando práticas de vida activa, participação em actividades e solicitar as intervenções de outros recursos como a autarquia na melhoria de condições de segurança na habitação (conforto habitacional), a IPSS ou a Misericórdia no acompanhamento de maior proximidade, o sector privado nas ofertas que se apresentarem mais rentáveis do ponto de vista financeiro, do médico, do hospital e de todo um conjunto de meios que já existem e não são orientados nem liderados com vista aos interesses das pessoas idosas mas sim aos interesses das instituições e entidades.
No futuro teríamos um novo técnico, um novo especialista cuja formação base pudesse ser das áreas das ciências socias, humanas ou de saúde e que se especializasse em técnico da comunidade. Muitos dos técnicos do centro de saúde são exactamente isso: interventores na comunidade, conhecedores profundos do estado de saúde e social dos seus clientes. Devemos pois aproveitar essa mais-valia que já existe.
A CONSULTA DO ENVELHECIMENTO será no futuro uma evidência. O adiamento da implementação deste modelo é uma perda de tempo e, especialmente de dinheiro.
Obviamente que isto é o terror para quem se habituou a viver das comparticipações do estado sem controlo e sem responder a quaisquer indicadores de qualidade, recebendo o mesmo dinheiro tratando bem ou mal, recebendo o mesmo dinheiro mantendo a funcionalidade ou tornando os idosos incapazes.
Estamos há alguns anos á espera dum ministro da área social que fique na história mas o nevoeiro tem sido muito e o D. Sebastião não aparece. Um ministro, um decisor que marque a diferença e que pense na forma como vai envelhecer e se é o modelo actual de cuidados e serviços que deseja para o seu envelhecimento. Alguém que não precise de ir ao estrangeiro copiar modelos na ideia de que os outros têm mais ideias que nós.
[1] Média de médicos por 100 mil habitantes em Portugal 377 e na Europa 328. Média de enfermeiros em Portugal 534 e na europa 792.
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