
Entrevista com Nelson Guerra, Presidente da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Gestores e Liderança (APEGL)
Hospital do Futuro (HdF): Por que motivo é importante os enfermeiros desenvolverem capacidades de gestão?Nelson Guerra (NG): É comum afirmar-se que os Enfermeiros “vivem o hospital porque estão lá dentro 24 horas por dia”, pelo que é fácil deduzir que terão de ter uma orientação que garanta a continuidade e assegure a qualidade e quantidade dos recursos necessários aos utentes a quem se dirigem. Esta orientação só poderá vir de quem tenha competências em gestão.
O Enfermeiro gestor na sua prática clínica de contexto hospitalar, cuidados de saúde primários ou cuidados continuados e integrados, avalia as necessidades dos utentes e organiza as respostas necessárias de acordo com os princípios científicos da Gestão e da Enfermagem. Este Enfermeiro enquanto líder na unidade / serviço é responsável pela gestão dos recursos humanos (Enfermeiros e Auxiliares) que lhe são atribuídos, bem como assume a gestão dos recursos materiais e equipamentos que são disponibilizados para os cuidados/tratamentos dos utentes. Garante a excelência da prática de cuidados de enfermagem, de condições do exercício com respostas competentes e eficazes às necessidades complexas de todos os contextos em que os utentes se encontram e na qual exercemos. Este Enfermeiro tem de dominar competências da área da Gestão que vão desde a gestão de stocks/farmácia até à gestão de conflitos e dos recursos humanos (tantas vezes insuficientes) para as necessidades identificadas. Porque sobre ele recai essa responsabilidade, a de assumir a segurança do doente como o seu objectivo fundamental, num compromisso com o cidadão respeitando-o como pessoa, como cidadão.
Por tudo isto os Enfermeiros Gestores têm vindo a desenvolver competências na área da Gestão em Enfermagem e em Saúde.
HdF: Que tipo de funções associadas à gestão são desempenhadas pelos enfermeiros?NG: É necessário clarificar que os Enfermeiros exercem actividade nos três níveis da Gestão – operacional, intermédia e estratégica, pelo que todas as funções associadas à gestão são desenvolvidas (ou podem ser desenvolvidas) por Enfermeiros. Esta ressalva reporta-se ao continuado, mas constante afastamento dos Enfermeiros dos centros de decisão nas organizações. Veja-se por exemplo as Administrações Regionais de Saúde (ARS), onde actualmente os Enfermeiros foram completamente afastados da gestão de topo, com excepção da ARS Norte, o que é simplesmente inaceitável em qualquer sistema de saúde que se deseje congregador de saberes e potenciador das repostas numa visão centrada nos utentes e não em (alguns) profissionais.
Somos nós quem assume o papel particularmente importante na garantia do funcionamento, gestão de Recursos Humanos, logística, gestão de cuidados e condições ambientais indispensáveis para o regular funcionamento de qualquer unidade ou estabelecimento de prestação de cuidados de saúde.
No nosso exercício profissional os Enfermeiros da área de Gestão têm como objectivo fundamental a segurança do doente, a prevenção, tratamento e reabilitação da pessoa doente, através da gestão de cuidados de Enfermagem, da gestão dos serviços/departamentos ou organizações, da gestão de competências dos recursos disponíveis e da gestão de dinâmicas ao nível do sistema de saúde.
HdF: Em Portugal, como avalia o desempenho dos enfermeiros no âmbito da gestão?NG: O Enfermeiro Gestor tem vindo a assumir um conjunto de responsabilidades fundamentais para a melhoria da qualidade dos cuidados prestados; de entre os inúmeros exemplos, podemos citar a nível macro: a taxa de cobertura vacinal obtida para o país e a diminuição da mortalidade infantil; ao nível organizacional: a liderança em projectos de melhoria da qualidade, o papel central nas Comissões de Controlo de Infecção e de Saúde Ocupacional, a concretização de projectos anuais de formação, a implementação de processos de organização dos recursos materiais e farmacêuticos, de avaliação do desempenho e a implementação de sistemas de informação.
É portanto fácil avaliar o desempenho dos Enfermeiros Gestores, basta para tanto reflectir um pouco sobre a importância da sua acção na qualidade dos cuidados prestados nas unidades que dirigem, ou na importância da sua intervenção na eficiência das soluções que apresentam, na sua capacidade de resolução de conflitos, nas decisões atempadas e ponderadamente suportadas.
HdF: O enfermeiro gestor poderá ter um papel relevante também na promoção da saúde e, portanto, na prevenção da doença?NG: No nosso contexto actual, é um desperdício económico o anular dos investimentos públicos e privados efectuados nas carreiras profissionais dos enfermeiros da área de gestão que transitaram nas diferentes categorias mediante a obtenção de cursos específicos financiados pelo Estado Português, onde, entre outras, a competência de gestão era prevista.
O desenho de políticas de recursos humanos de cariz economicista no curto prazo que está a ser implementado no nosso sistema de saúde, que envolvem os Enfermeiros da área de gestão, descategorizando-os e desprezando completamente os anos e investimentos formativos na qualificação e na aquisição de competências, com a liquidação de aspectos fundamentais das suas carreiras profissionais, como é notório pela total desvalorização pela função de gestão neste grupo, pode condicionar o futuro do nosso Sistema de Saúde. Saliento a actual evolução demográfica e as projecções para a evolução das diferentes doenças crónicas e a necessidade de reflexão objectiva através de análises custo-benefício sobre quem deve liderar que processos.
A APEGEL foi criada porque é necessário reafirmar todos os princípios referidos, porque queremos ver respeitados os preceitos legais em vigor e a salvaguarda do compromisso com a segurança do utente/doente.
Ao gerir os recursos colocados à sua disposição, o Enfermeiro Gestor contribui para a máxima eficácia na organização dos cuidados de enfermagem e consequentemente para os Ganhos em Saúde.
HdF: É possível avaliar os resultados do trabalho de gestão na enfermagem? Como?NG: A responsabilidade do Enfermeiro gestor para com o cidadão implica a explicitação e clarificação da sua actividade recorrendo-se a instrumentos estruturantes para a prática, nomeadamente com a apresentação de indicadores de resultado, mas sobretudo de indicadores de processo pois são estes o que melhor demonstram a melhoria das práticas baseadas na evidência e maior eficiência na gestão dos escassos recursos disponíveis.
A gestão dos recursos humanos da saúde, em particular de enfermagem, tem que ser sinónimo da boa prática gestionária dos enfermeiros gestores, pela garantia de adequação desses recursos às necessidades de cuidados e qualidade do exercício pela avaliação efectiva e diferenciadora da excelência no desempenho procurando a melhoria contínua dos serviços prestados.
É possível, e desejável, avaliar os resultados da gestão em Enfermagem. Existem meios científicos para o fazer e os Enfermeiros Gestores são os primeiros a promover essa avaliação. Contudo, é também verdadeiramente importante que se aceite, sem preconceitos injustificáveis, que o papel dos enfermeiros na área da gestão não só é desejável como é determinante para o sucesso da organização. Os países chamadas desenvolvidos já viram que os pilares da organização de cuidados de saúde são os Enfermeiros Gestores e vão, por isso, cada vez mais acreditando no seu valor enquanto elementos activos dos centros de decisão.
HdF: Num contexto de crise económica, considera que o papel de enfermeiro gestor assume maior importância?NG: O Enfermeiro Gestor na sua prática clínica tem de compreender a reforma do sistema de saúde e o seu impacto nos cuidados prestados, sendo visionário, pensando estrategicamente de forma a planear adequadamente as respostas que lhe são solicitadas enquanto promove o trabalho em equipa de forma eficaz, gerindo a mudança, dando valor à produção de cuidados de enfermagem e preparando-se adequadamente para as novas necessidades e competências.
Salientamos aqui que, de todos os grupos com primeiro ciclo de formação na área da saúde, a enfermagem é aquele que detém um maior número de profissionais qualificados na área da gestão, obtendo sinergias óbvias entre a área clínica e a componente gestionária, competência que nos parece fundamental numa fase em que a “clinical governance” se assume como uma prioridade dos sistemas de saúde a nível mundial.
Por outro lado, a actual evolução demográfica e as projecções para a evolução das diferentes doenças crónicas e a necessidade de reflexão objectiva através de análises custo-benefício sobre quem deve liderar os processos apontam, cada vez mais, para os cuidados de Enfermagem, obrigando a uma maior necessidade de gerir esses cuidados, dotando as organizações dos profissionais e das competências adequados para as respostas necessárias às populações que se servem, e esta função diagnóstica, de planeamento e de organização dos cuidados de Enfermagem só um Enfermeiro Gestor tem competência para fazer.
Perante esta análise é claro que num contexto de maior contenção devemos utilizar melhor e mais adequadamente os recursos que temos e não desaproveitá-los apenas por opções politicas menos claras, cujos resultados serão seriamente nefastos para a Saúde em Portugal.
HdF: Que desafios enfrentam os enfermeiros na área da gestão no futuro?NG: Os Enfermeiros Gestores em Portugal estão hoje numa encruzilhada muito séria, isto porque, se por um lado a regulação da profissão (ordem dos Enfermeiros) não parece demonstrar interesse em regular esta área de exercício enquanto importante suporte à qualidade dos cuidados prestados, por outro lado é cada vez mais evidente o desinvestimento que as organizações fazem na profissão, particularmente ao nível da gestão, muito por “orientação” da inqualificável proposta de carreira aprovada, em que é evidente a desvalorização da função da Gestão de Enfermagem e a descategorização dos Enfermeiros, em particular dos Enfermeiros Gestores.
Internacionalmente, o ICN (International Council of Nurses) dá mostra bastante da importância de a Enfermagem deter conhecimentos, competências, estratégias e poderes para gerir e liderar serviços de enfermagem e de saúde através da mudança, no sentido de contribuir para um futuro mais saudável de toda a população.
Assumimos a inovação e a sustentabilidade, fundamentada numa efectiva responsabilização, na concretização dos objectivos individuais e colectivos, na valorização das competências efectivamente exercidas pelos Enfermeiros Gestores, competindo pelo futuro do nosso exercício e valorizando a nossa identidade e a contribuição específica para o sucesso dos cuidados de saúde porque entendemos que a qualidade e segurança dos cuidados prestados aos cidadãos estão directamente relacionados com a qualidade da prática dos Enfermeiros da área da Gestão.
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