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PESSOAS IDOSAS COM SIDA EM LARES DE IDOSOS: SIM OU NÃO?

Surpreendentemente o Jornal Publico de segunda-feira passada dedicou um titulo de primeira página às Pessoas Idosas, tratando-as como sempre por “Idosos” (termo masculino que não designa correctamente as pessoas Idosas). Mas o assunto dizia respeito a Pessoas Idosas com HIV positivo e a dificuldade de colocar estas pessoas em Lares de idosos.

No trabalho que vou desenvolvendo na área da Grande Idade tenho sentido essencialmente que existe uma grande incapacidade da comunicação social em contribuir positivamente para a melhoria dos cuidados e oferta de serviços às Pessoas Idosas, consequência de um desconhecimento profundo da legislação, da situação real no terreno e da própria obrigatoriedade de mediatismo a que estão obrigados os profissionais dessa comunicação social no tratamento de assuntos.

Este contudo é um assunto que deveria requerer mais cuidados. No entanto é tratado como os assuntos que dizem respeito aos incêndios em lares, aos maus tratos a pessoas idosas, às ilegalidades praticadas nesta área e às mediáticas acções inspectivas da segurança social.

No fundo só é notícia a grande desgraça que vai acontecendo e só é notícia quando se pretende dar visibilidade a alguma organização ou a alguma personalidade que, à falta de trabalho mais meritório, utiliza as Pessoas Idosas e os seus dramas como justificação para terem protagonismo.

Há muito que se fala nesta situação. Não é nova e infelizmente vai ter tendência a agravar-se, exactamente pelo aumento da esperança de vida das pessoas e porque a doença insiste em evoluir.

É pois necessário termos em conta alguns pressupostos para podermos ter uma opinião mais fundada no conhecimento e na realidade.

Em primeiro lugar deveremos definir que lares queremos ter. Não poderemos continuar a defender mudanças dos lares de idosos, construindo um modelo novo, mais digno e mais adequado e adaptado às novas necessidades e depois insistir num acumular de situações impossíveis de gerir nos lares actuais.

Serão de facto os lares as repostas adequadas para as pessoas com SIDA? E que pessoas são essas? São pessoas independentes, com projectos de vida para desenvolver e com potencial para manterem a vida activa e saudável ou serão pessoas dependentes, necessitadas de cuidados permanentes para actividades de vida diária e de cuidados de saúde?

Os lares na legislação que a Segurança Social insiste em dizer que se mantém em vigor, ainda que isso não seja correcto, têm um Despacho Normativo que determina o seu funcionamento:

NORMA X, numero 5: No acto de admissão do idoso pode ser exigido um atestado comprovativo de que não sofre de doença infecto-contagiosa ou mental aguda e, quando exista um passado clínico, um relatório médico.

Nos novos manuais de qualidade emitidos pela segurança social a definição de lares é dada assim:

A Estrutura Residencial constitui-se como uma Resposta Social, desenvolvida em equipamento, destinada a alojamento colectivo, num contexto de “residência assistida”, para pessoas com idade correspondente à idade estabelecida para a reforma, ou outras em situação de maior risco de perda de independência e/ou de autonomia que, por opção própria, ou por inexistência de retaguarda social, sem dependências causadas por estado agravado de saúde do qual decorra a necessidade de cuidados médicos e paramédicos continuados ou intensivos, pretendem integração em estrutura residencial, podendo aceder a serviços de apoio biopsicossocial, orientados para a promoção da qualidade de vida e para a condução de um envelhecimento sadio, autónomo, activo e plenamente integrado.

Perante estas duas informações devemos ter em conta que os lares não são propriamente as respostas para Pessoas Idosas doentes. Julgo que já hoje todos entendemos que não podemos ter um modelo em que se colocam todas as pessoas independentemente das suas condições de saúde no mesmo local só pelo facto de terem mais de 65 anos e até aqui por se encontrarem abandonadas ou pertencerem a escalões sociais pouco favorecidos.

OS LARES SÃO RESPOSTAS PARA AS PESSOAS IDOSAS DESENVIOLVEREM UM NOVO PROJECTO DE VIDA E TEREM MEIOS PARA CONSEGUIREM MANTER A SUA VIDA O MAIS ACTIVA POSSIVEL E COM ACOMPANHAMENTO QUE OS AJUDE A ANTECIPAR OS ACONTECIMENTOS CRITICOS DE SAUDE, DIMINUINDO AS INCAPACIDADES. É a nossa casa com acompanhamento de técnicos especializados em várias áreas que tem como objectivo manter-nos felizes.

Esta questão de uma pessoa idosa com SIDA só se coloca porque as pessoas insistem num modelo de lar asilar, completamente subdesenvolvido e próprio de sociedades cujo respeito pela pessoa idosa ainda é muito ténue.
Outra questão se coloca nesta discussão muito importante: Será que as Pessoas Idosas que se encontram actualmente em Lares, que nasceram entre 1923 e 1940 estão preparadas para conviverem no mesmo espaço com pessoas com SIDA? Será que devemos obrigá-las a aceitarem algo que na sua vida nunca terá sido tolerado como a igualdade sem descriminações? O papel dos técnicos nos lares de idosos é de EDUCADOR das pessoas idosas?

Todos os técnicos no terreno, preocupados com a felicidade e a dignidade das Pessoas Idosas sabem bem que a geração que actualmente se encontra nos lares tem características muito específicas e não entende a vida, a sociedade e o mundo como nós queremos que os nossos filhos entendam. Não será nossa obrigação considerar isso legítimo e respeitarmos essa mentalidade?

Porque não perguntam às Pessoas Idosas que estão em lares se aceitam a situação e pretendem fazer juízos de valor sobre a decisão de alguns técnicos que não são o problema mas sim a solução. O problema está em quem não tem qualquer ideia sobre o comportamento de pessoas idosas em grupo, em situação residencial. Está em quem despertou para estes assuntos tarde de mais e gosta de normalizar a sociedade pelos seus “altos” valores ditos morais.

A descriminação quer queiramos quer não faz parte da vida das Pessoas Idosas e elas, mais que ninguém, entendem isso sem contestarem porque assim foram educadas e assim viveram 80 e 90 anos. E não se trata aqui de tomar uma posição de resignação. Trata-se de respeitar as Pessoas idosas e a vida que sempre tiveram.
Por estas razões e outras que seria fastidioso descrever aqui, deveremos ser mais cuidadoso nos juízos que fazemos quando se trata de colocar Pessoas idosas com SIDA em Lares de Idosos. Pelo menos termos o cuidado de não condenarmos de imediato os técnicos que trabalham no terreno e são conhecedores de realidades que às vezes os outros não compreendem facilmente.

Não será que estaremos também na hora de criar respostas para grupos específicos de população Idosa?
Por último só existe um pormenor que me incomoda: os Lares também, não recebem Pessoas Idosas com patologias mentais e nunca ninguém se preocupou com isso. Ainda bem que o caso da infecção HIV poderá vir a contribuir para nos preocuparmos com Pessoas que nos rodeiam há dezenas de anos e nunca foram objecto de preocupação.

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