Li, recentemente, uma noticia sobre o projecto de construção de um Lar de Idosos muito curioso, que me deu vontade de partilhar com outras pessoas. Dizia assim, a noticia:
“O Palácio do Farrobo, em Vila Franca de Xira, pode estar próximo da recuperação. O edifício histórico deverá ser transformado num Lar de qualidade para a terceira idade. O Lar terá capacidade para 60 pessoas em regime de residência, com refeitório, uma piscina e várias hortas em volta para manter os utentes em actividade. A recuperação do edifício tem um custo estimado em 4,5 milhões de euros.”
O que me chama a atenção nesta noticia é o facto de ela representar a insistência num modelo de equipamentos para a chamada “terceira idade” completamente desadequados em que a incapacidade de se perceber alguma coisa sobre as necessidades das pessoas idosas é a principal característica dos promotores destas iniciativas. Infelizmente com custos elevadíssimos e sem os resultados que todos desejariam, especialmente os mais idosos, mas também os próprios operadores que depois de praticarem o verdadeiro manual da asneira, queixam-se de não conseguirem a sustentabilidade económica dos seus projectos.
“Uma piscina” e “várias hortas em volta para manter os utentes em actividade”.
Saberão estes promotores os interesses das pessoas idosas de forma a basearem a sua oferta em duas informações completamente desajeitadas? Ou estaremos a tratar de um novo segmento de negócio?
Que se saiba as dificuldades em ocupar pessoas idosas em piscinas são sérias e reais. A geração de idosos que neste momento recorrem a lares nasceu em 1928 e é principalmente constituída por pessoas do sexo feminino com óbvios e evidentes constrangimentos em vestir fatos de banho em publico. Já nem falarei na patetice da insistência na actividade física para pessoas que nunca tiveram hábitos de exercício físico. No fundo o que este modelo continua a promover não é o Lar para pessoas idosas, são tentativas, falhadas, é certo, de casas de reeducação para pessoas de 80 anos.
Há quem pense que a melhor forma de ser criativo nesta área e oferecer serviços a pessoas idosas é contrariar os preconceitos e apostar em actividades aparentemente “inovadoras” como a utilização de piscinas e natação. É legitimo e aceitável do ponto de vista teórico mas devemos acima de tudo respeitar as pessoas nesta fase da sua vida. Essencialmente respeitar as pessoas. Ou será que existem, por exemplo, evidências, de amento de anos de vida a partir dos 80, em conseqüência do exercício físico após a entrada num Lar? Combater preconceitos nesta área é pôr em causa aquilo que se anda a fazer e se insiste em fazer, sem respeitar interesses porque nem sequer se avaliam e copiando modelos de outros países, com outras culturas e outras tradições.
Mas se o anuncio da piscina é curioso, o das hortas é patético. Quem anda por ai a dizer que as pessoas idosas gostam de cultivar hortas? Que evidencia existe sobre isto que faça com que alguém anuncie esta actividade como uma mais valia para um Lar? Reparem no paradoxo: um Lar de qualidade com hortas para manter a actividade. Será que não existem coisas mais atraentes do que hortas? Será que as pessoas idosas querem plantar, mondar, regar, cavar e cuidar de couves, cenouras ou batatas? É giro, não há duvida! As escolas primárias têm as chamadas hortas pedagógicas e os meninos ficam muito contentes de verem um feijão num vasinho pequenino a crescer. È o feijão do João e o feijoeiro. Mas não são eles que tratam das hortas porque só o fazem quando lhes apetece e se não existe um agricultor por ali perto os legumes morrem todos tornamdo a horta uma autêntica frustração.
Actividades que requeiram atenção e acompanhamento permanente e freqüente não são apropriadas para as pessoas mais idosas. Se reflectirem um pouco perceberão porquê. São habitualmente actividades rotineiras mas que exigem um grau de responsabilidade que não é justo exigir a uma pessoa que nos procurou para passar alguns anos com felicidade, descontraída e sem responsabilidades.
Neste modelo só falta uma creche para que as criancinhas partilhem a sua imensa alegria e felicidade com os idosos como se fossem uma família muito grande de avós e netos. É também habitual insistir-se que as pessoas idosas gostam muito de crianças, o que, afirmo, é completamente falso, não estando em causa a concepção do “gostar” habitual mas estando em causa o facto das pessoas idosas se sentirem com enorme insegurança quando o seu espaço é invadido por crianças em movimento. Insegurança pela ansiedade que sentem em relação à segurança das crianças. Quem duvida disto nunca passou pela fase de levar o seu filho de visita a casa dos avós, local em qualquer tosse da criança é uma pneumonia e qualquer movimento põe em causa a sua integridade física.
Porque não se anuncia uma sala de cinema de qualidade com lugar para cadeiras de rodas e camas articuladas, écrans especiais com legendas de maior dimensão? Porque não se anuncia uma sala de viagens no sofá, virtuais ou biblioteca, espaços de cidadania ou outras coisas diversas, mito diversas, de forma a que as pessoas possam escolher livremente as suas actividades?
Anunciar uma piscina é próprio também de alguma tradição nacional que nos habitou a entender que uma casa com piscina é o sonho de todos os mortais. Mas não é.
De ocupação e lazer, bem como de manutenção de actividade poderíamos falar aqui muito mais mas isso já entra no domínio da consultadoria técnica e quem paga 4,5 milhões de euros (!?) para a construção de um Lar com 60 camas não merece conselhos gratuitos.
Você precisa ser um membro de Hospital do Futuro para adicionar comentários!
Entrar em Hospital do Futuro