Temos sido invadidos, nos últimos dias, por notícias de mortes de pessoas idosas abandonadas em casa. Curiosamente o ano passado, precisamente no início do ano, tivemos a mesma invasão e assistimos à declaração do ex-presidente do Instituto de Segurança Social, Dr. Edmundo Martinho, dizendo que já estava estudado um projecto de teleassistência para implementar a nível nacional. Agora tivemos a declaração do Sr. Ministro da Solidariedade Social, dizendo mais ou menos o mesmo.
Ora poderei dizer que há cinco anos acompanho o desenvolvimento de sistemas de teleassistência, trabalho este que obteve maior importância após se constituir a Associação Amigos da Grande Idade e ter sido eleito seu Presidente. A história da teleassistência é longa e tenho especial interesse em partilhá-la.
A primeira empresa a comercializar pulseiras electrónicas e a introduzi-las no mercado português foi a INTERVOX, não pelas melhores razões já que eram, e ainda são, destinadas aos presos e controladas por um callcenter de uma empresa de segurança nacional. Tive a oportunidade de trocar impressões sobre o sistema com representantes da empresa detentora da patente e de perceber o funcionamento das mesmas e as suas potencialidades. Na altura estudou-se a possibilidade da sua comercialização para acompanhamento a pessoas idosas e a bebés, recém-nascidos para segurança dos estabelecimentos onde nasciam.
Posteriormente muitas marcas de pulseiras e sistemas apareceram no mercado e nasceram, quais cogumelos, imensos projectos por todo o País. Projectos efémeros, sem qualquer sustentabilidade e dos quais não foi, até hoje, feito qualquer avaliação em termos de objectivos conseguidos e de indicadores desses objectivos. Ou seja, ninguém sabe a eficiência prática destes sistemas.
Mais recentemente e já na qualidade de presidente da Associação Amigos da Grande Idade, fui convidado por uma multinacional de comunicações para avaliar sistemas de segurança e acompanhamento de pessoas idosas, utilizando desde as simples pulseiras a extraordinários equipamentos tecnológicos que nos permitem ver o futebol ao mesmo tempo que estamos a falar com o nosso avô distante e a vê-lo no cantinho do ecrã.
Não fui convidado para validar ou dar qualquer opinião sobre a implementação do negócio, a qualidade dos equipamentos, a necessidade dos mesmos no futuro ou para falar sobre os números do envelhecimento em Portugal, as características dos nossos idosos ou outra opinião qualquer. Fui convidado pela simples razão de que esta multinacional não percebia, não sabia e não entendia como estes sistemas se poderiam introduzir no mercado e como seria feita a implementação nacional do sistema.
Aliás viam a sua implementação com um callcenter único que poderá estar num pais qualquer e noutro continente e que funcionasse com o modelo dos callcenter’s que conhecemos Portugal Telecom, ZON, CABOVISÃO, etc.) Ficaram tristes de os informar que isso não é assim.
Projectos destes já tivemos muitos sendo um dos mais visíveis e divulgados o que foi desenvolvido pela Cruz Vermelha, Portugal Telecom e suponho pela Camara Municipal de Lisboa. Onde está o resultado? Quantas pulseiras existem hoje? Quantas pessoas são acompanhadas? Qual a sustentabilidade do sistema?
Existem vários problemas da implementação de um sistema de teleassistência para segurança e acompanhamento de pessoas idosas em Portugal. E mesmo entendendo que os mais óbvios (vontade das pessoas idosas) podem ser resolvidos, existe um enorme problema: liderança e organização. Quem lidera este processo? Quem manda? Quem define regras, impõe critérios, determina indicadores para objectivos nacionais?
Pensar que o modelo de teleassistência é entregar uma dúzia de pulseiras por instituição ou acabar por lançar um concurso para venda de pulseiras e comparticipar essas pulseiras ou anda pensar que o modelo é uma linha tipo saúde 24, está distante de ter qualquer experiencia ou conhecimento do trabalho com pessoas idosas.
Um serviço de teleassistência eficaz (e não só eficiente) requer um plano nacional de intervenção (proposta da Associação Amigos da Grande Idade) e requer algumas estratégias e um enorme planeamento que a Associação já estudou e que guarda para quem decidir implementar tal sistema de uma forma séria e sustentável do ponto de vista económico.
Não podemos continuar a utilizar as mortes de idosos em casa, isolados ou não, para precipitarmos mais custos para o sistema social e reforçar o mercado já existente que vive em função das comparticipações sem cumprir quaisquer regras de qualidade, nem que seja pelo simples facto de não ter indicadores que possa apresentar.
No contexto económico e social em que vivemos não podemos continuar a esbanjar e a manter sempre as mesmas pessoas, que há anos que não fazem evoluir esta área dos cuidados e serviços a pessoas idosas, a determinarem mais projectos e projectitos completamente efémeros, mal estudados e mal implementados.
Sugeria que, pelo menos, confrontassem aqueles que hoje, estando perto do poder, dá opiniões, com os que, longe desse poder, percebem da arte e do ofício. Não custa nada e depois logo se verifica quem pode contribuir mais para um País melhor na área social.
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