
Recebi há dias um
relatório da Price Waterhouse Coopers muito interessante. As mudanças que se prevêm são várias e substanciais. Desde logo desaparecem as oportunidades para os medicamentos de marca no apoio aos cuidados primários, sinvastatinas, etc., e vão aparecer as moléculas personalizadas, desenhadas para enfrentar as doenças cada vez mais complexas e que afectam uma percentagem cada vez menor da população. Resultado, os preços dos medicamentos tendem a disparar e o relatório avisa: se as companhias farmacêuticas não começarem a colaborar mais cedo com as entidades pagadoras no desenho de uma estratégia de performance e preço que seja compensadora, dificilmente poderão fazer negócio no futuro.
Creio que este estudo pode acrescentar alguns dados interessantes para o debate que se realizará nas
Tertúlias do Alto deste mês e que versa precisamente a problemática do medicamento.
As companhias farmacêuticas devem envolver mais cedo as entidades pagadoras no processo de pesquisa e desenho de novos fármacos, tendo em conta as suas expectivas de performance e inclusive propor modelos de pagamento-por-performance, como já é o caso em alguns países que apenas pagam à cabeça um número pré-definido de doses por tratamento e a companhia obriga-se a dar gratuitamente as doses extra que forem necessárias para garantir a eficácia desse mesmo tratamento, caso seja necessário.
Enfim, são vários os possíveis cenários de colaboração estratégica entre as entidades pagadoras e as companhias farmacêuticas num futuro próximo. Falta apenas pensar nas autoridades do medicamento do presente. Estarão estas na União Europeia preparadas para o tipo de diálogo que têm que estabelecer entre si para constituir-se como uma única autoridade central do medicamento com intervenção a um nível agregador das autoridades em cada um dos estados membros? Estará esta nova entidade desenhada para poder entabular um diálogo estratégico com as grandes empresas farmacêuticas para este tipo de acordos sobre os medicamentos do futuro? Sem dúvida que as necessidades da mais elevada formação técnica por parte dos servidores públicos nesta mega-agência supervisora dos medicamentos devem ir a par com os que a indústria farmacêutica tem ao seu dispôr. E somente uma agência Europeia poderá estar bem dotada de recursos para poder reter os melhores talentos para que possam realmente existir diálogos paritários entre o Estado-pagador e a indústria-investigação para lograr uma saúde sustentável em 2020. De outro modo podem gerar-se desiquilíbrios na distribuição do conhecimento e amanhã, mais do que hoje, quem tem o conhecimento é que terá o poder.
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